Vivemos um tempo de paradoxos. Temos abundância de recursos naturais, mas pouca gente tem acesso a energia ou água de qualidade. No mercado, pipocam novos produtos, aumentando nossa ânsia de consumo, mas muitas pessoas não têm nem o que comer. Mesmo dentro desse cenário desigual, estamos esgotando nosso planeta. A humanidade vem consumindo 25% a mais de recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra. Segundo o Relatório Planeta Vivo 2006, produzido pelo WWF, se as atuais projeções se concretizarem, a humanidade consumirá perigosamente, até 2050, duas vezes mais recursos do que o planeta pode gerar por ano. E mais: se nossos padrões de consumo e produção continuarem no mesmo patamar, serão necessários dois planetas iguais ao nosso para atender às necessidades de água, energia e alimentos. Diante desse impasse, a melhor maneira de mudar essa situação é adotar escolhas conscientes de consumo.
Para se ter uma idéia do volume do que andamos consumindo, no ano 2000 foram gastos em nosso planeta, em compras de produtos ou serviços domésticos, mais de 20 trilhões de dólares. São quatro vezes mais do que se gastou em 1960. E isso significa que, além de consumirmos muito mais, estamos poluindo mais, despejando um número cada vez maior de lixo e aumentando o desperdício. O Brasil, por exemplo, é um dos maiores produtores de alimento do mundo, mas tem uma altíssima taxa de desperdício: 84%. "O que falta é planejamento, especialmente nas compras do mês. Joga-se muita coisa fora, enquanto temos milhares de pessoas passando fome", aponta Raquel Diniz, coordenadora de capacitação comunitária do Instituto Akatu.
O poder das escolhas
Consumo consciente é aquele feito com consciência do seu impacto e voltado à sustentabilidade. Tem preocupações relativas à sociedade e ao meio ambiente, com o objetivo de não prejudicar a qualidade de vida das futuras gerações. Em outras palavras, é saber consumir de forma ética. Saber escolher um produto com base em qualidade, preço, impacto ambiental e responsabilidade social empresarial. "Antes de comprar, é preciso fazer as seguintes perguntas: necessito mesmo desse produto ou serviço? Ele é econômico? Não-poluente? É reciclável? Seus ingredientes ou componentes são obtidos respeitando-se a preservação do meio ambiente e da saúde humana? É seguro? A empresa respeita os direitos dos trabalhadores e do consumidor? Tudo isso faz diferença", ensina Lisa Gunn, gerente de informação do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Todas essas questões deveriam fazer parte do dia-a-dia dos brasileiros, mas pouca gente realmente as põe em prática. Temos os valores, mas não partimos para a ação. "As pessoas ouvem falar do problema, mas não têm noção de que ele pode estar, de alguma forma, ligado a um ato dela. Um exemplo é o consumo de carne vermelha. Pouca gente pára para pensar que aquela carne pode ter alguma relação com o desmatamento da Amazônia e o aquecimento global", comenta Raquel Diniz. Outro exemplo citado por ela é bem mais simples: sabemos que não devemos jogar papel na rua, pois suja e polui o ambiente, mas continuamos fazendo.
Mudar é difícil
Ser um consumidor consciente não é tão complicado, mas o grande desafio é a mudança de hábitos. Pequenas atitudes no dia-a-dia, como planejar melhor as compras, evitar o desperdício de água, energia e alimentos, reciclar objetos, fazer a coleta seletiva do lixo e buscar informações sobre responsabilidade social e ambiental das empresas já são um grande passo. E não só agir desta forma, como também mobilizar outras pessoas a fazer o mesmo. Dar o exemplo ou se inspirar em pessoas que fazem esse tipo de ação. Raquel Diniz afirma que, mais do que nunca, é preciso fazer essa reflexão. "Precisamos nos perguntar: qual a parte que nos cabe? Podemos ser agentes de mudança, e não meros espectadores. Boas práticas devem ser passadas para a frente", finaliza.
Talvez você nunca tenha parado para pensar nisso, mas não existe um único ato de consumo que não tenha impacto sobre o meio ambiente. Por isso é tão importante fazer escolhas conscientes, que evitem desperdícios e colaborem para evitar a falta de recursos no futuro. Veja como você pode fazer a sua parte:
Reciclagem: Pratique a coleta seletiva de lixo e reaproveite alimentos e outros materiais. Assim, você evita que mais recursos naturais sejam usados e ajuda na diminuição do lixo da sua cidade. Se um terço do material reciclável do Brasil fosse realmente aproveitado, a energia economizada beneficiaria 10 milhões de pessoas.
Combustíveis: Para ir à escola ou ao trabalho, escolha meios de transporte menos poluentes. Abandonando o carro, por exemplo, você gasta menos com gasolina, impostos, manutenção. E o planeta agradece.
Energia: Evite deixar luzes e aparelhos elétricos sem necessidade. Se os seus aparelhos ficam em stand by (com aquela luzinha acesa mesmo quando ele está desligado), tire-os da tomada. O stand by é responsável por até 25% da energia consumida. Troque as lâmpadas normais por lâmpadas fluorescentes, que são mais econômicas e duradouras. Se você usa chuveiro elétrico, evite tomar banho nos horários de pico, quando tem muito mais gente usando energia. Na compra de eletroeletrônicos, procure comprar os que têm os selos Procel e Conpet, que atestam que o produto tem menor consumo energético e baixo impacto ambiental.
Água: Evite banhos longos e uso desnecessário de água. Lave as roupas com a capacidade máxima da máquina de lavar e evite lavar a calçada com mangueira - use um balde e uma vassoura. Procure, também, consertar vazamentos em casa, pois eles são grandes vilões da conta de água. Se o consumo na sua casa é alto, pode ser uma boa idéia trocar as torneiras e o vaso sanitário por modelos novos, que são mais econômicos.
Alimentos: Procure comprar só o que vai consumir durante a semana, para evitar que a comida estrague com a passagem dos dias. Para isso, faça um planejamento antecipado. As sobras de alimentos também podem ser aproveitadas, então capriche na criatividade! Sempre que possível, troque o supermercado pela feira. Lá, os produtos não são embalados e os preços são menores. Prefira produtos naturais aos industrializados. Além ser uma escolha ecológica, eles têm qualidade melhor e preços menores.
Embalagens: Evite comprar aquelas feitas de materiais sintéticos e não-orgânicos e dê preferência para as recicláveis, como as de papel, papelão ou plástico biodegradável. Na hora de ir ao supermercado, use as sacolas retornáveis ao invés dos sacos plásticos, que demoram anos para se decompor, entopem os lixões das cidades e ainda poluem o ambiente.
Eletrônicos: Compre com mais parcimônia. Não troque celulares e computadores a todo momento.
Alimentação: Evite carne vermelha. Além de mais cara do que a carne branca, as florestas estão sendo dizimadas para a criação de gado. Além de consumir água excessivamente, o gado arrota. E o arroto dos animais emite poluentes, colaborando com o efeito estufa.
Vestuário: Cuidado com o excesso de sapatos, cintos e bolsas. Dependendo do material de que são feitos, eles podem levar 400 anos para se deteriorar.